
CINCO
ÁFRICAS/ CINCO ESCOLAS
POR
MANUEL GRAÇA DIAS
COMISSÁRIO DA
REPRESENTAÇÃO OFICIAL
PORTUGUESA NA BIA'09

A
representação portuguesa na BIA’09 foi pensada como uma
oportunidade para uma
acção mais propositiva, mais útil, uma oportunidade de
construir uma situação com hipóteses de continuidade,
que não se esgotasse nesta mostra.
Propositadamente, o olhar foi voltado para África e para
os cinco países de língua oficial
portuguesa que nos são afectiva e historicamente mais
próximos. Conhecidas as grandes carências com que essas
jovens nações se debatem na procura da construção de
sociedades mais justas e democráticas no meio dos
enormes desequilíbrios provocados pela irracionalidade
económica mundial, o tema da educação e das construções
a ela dedicada não pôde deixar de surgir como o mais
premente e o que maior sentido faria estimular e
promover.
Cinco escolas para África, exercícios assentes sobre
bases verdadeiras, menos autoreferenciados,
menos umbilicais; exercícios quase nos limites das
possibilidades da arquitectura;
ali, onde as condições de vida não estão certamente
formatadas pelo conforto
europeu e onde a urgência social é aguda e obriga a um
enorme e voluntário esforço de
outra invenção. A escassez e a sustentabilidade
encaradas no seu próprio território, já não
como premissas sócio-decorativas, académicas ou
retóricas.
Os projectos trazidos por Portugal à Bienal, constituem
a primeira fase de uma acção de maior alcance: a de
fazer construir em cada um destes países um objecto
arquitectónico
adequado: à escala local, às condicionantes locais, aos
materiais e tecnologias locais. |



Escolas simples e de fácil execução, mas não
miserabilistas nem redutoras das capacidades da
arquitectura; escolas duráveis, fortes, de manutenção
imediata, não reféns de tecnologias sofisticadas e de
impossível futura reparação; escolas bonitas,
simbólicas, amigáveis, onde os materiais e os modos de
construção localmente mais popularizados possam adquirir
nova expressão, potenciando outras aplicações inventivas
e algum orgulho e consciência descontraídos por sobre as
tradições que o tempo foi seriando nas diferentes
regiões africanas.
Entretanto, a escolha dos cinco arquitectos. Voltámo-nos
para a geração nascida nos anos
de 1960, procurando que os cinco convidados fossem
autores com um percurso já hoje sólido e coerente e cuja
capacidade em lidar com problemáticas menos confortáveis
fosse
notória.
Arquitectos decididos a continuar uma prática que
finalmente também poderá caracterizar a própria história
de uma actividade disciplinar a que chamássemos
portuguesa: a facilidade da mistura, o gosto e o desejo
de compreender o Outro, a coragem da proposição
heterodoxa, a vontade da experimentação frente a novos
cenários.
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São
cinco Áfricas diferentes, os locais − Achada Fazenda em
Cabo Verde, Cacheu na Guiné
Bissau, Santa Catarina em São Tomé e Príncipe, Benguela
em Angola e Vila do Milénio
(Nampula) em Moçambique − para onde as cinco escolas
foram projectadas.
São cinco escolas (formações, modos de ver, maneiras,
sensibilidades) também, as cinco possibilidades
diferentes que os cinco autores ensaiaram.
Os trabalhos que Inês Lobo, Pedro Maurício Borges, Pedro
Reis, Jorge Figueira e Pedro
Ravara/Nuno Vidigal aqui nos deixam, ilustram a hipótese
generosa de, para cada lugar,
para cada problema, os arquitectos desenharem uma
resposta única; de isolarem através da sua sensibilidade
uma possibilidade crítica específica: a que lhes parece
melhor, mais justa, mais adequada, mais bonita, para pôr
ao serviço das pessoas específicas e únicas
que a irão habitar.
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