
A
ARQUITECTURA NO LUGAR DA ACÇÃO
POR
JORGE BARRETO XAVIER
DIRECTOR-GERAL DAS ARTES

Quando, em 2008, propus ao Ministro da Cultura que a
presença de Portugal em São Paulo, na 8ª Bienal
Internacional de Arquitectura, correspondesse a um
projecto de criação em arquitectura gerador de impactos
em lugar específico, mais concretamente, nos cinco
países africanos de língua portuguesa, através de
propostas para o desenho de escolas, a sua resposta foi
imediata, no sentido de avançar.
Manuel Graça Dias foi o comissário convidado. A sua
capacidade criativa, o seu percurso como arquitecto,
professor e crítico de arquitectura, são elementos que,
associados às suas competências como comunicador e líder
de equipas, o indicam como referência incontornável do
actual panorama da arquitectura portuguesa.
Uma representação oficial em arquitectura pode, sem
desmerecer, ser um documento sobre a arquitectura
(passada ou presente), uma reflexão, ou uma utopia.
Qualquer dessas
possibilidades não é menor.
Todavia, não foi esse o caminho que decidimos fazer.
Não é limitador de um projecto de criação procurar para
o mesmo uma utilidade prévia?
Como se percebe, esta matéria tem diferente valor
conforme o campo da pergunta – é
questão sujeita a grande polémica, fazê-la no domínio
das artes visuais e das artes do
espectáculo (para simplificar). Todavia, seria estranho
não a colocar nos domínios da arquitectura e do design.
Apesar da crescente tendência para a apresentação de
propostas estéticas não funcionais, dificilmente se
aceita um objecto de arquitectura ou de design sem
utilidade. Sem poder abdicar as respectivas disciplinas
das utopias e dos programas “inúteis”, há um momento
que será, eventualmente, “o” momento da arquitectura,
que é o do construído – potência
e acto. |



A
capacidade crítica, o trabalho de escola, a erudição, a
criatividade, a competência técnica, a consciência
plástica, as noções sobre o território e a consciência
política, todas elas
de grande relevância para a arquitectura, têm expressão
numa proposição que se materializa.
E a materialidade da proposta já não pode, na sua
tridimensionalidade, ser como a instalação, a escultura,
o monumento, “inútil”. O seu patamar relacional não
será, apesar de também poder ser, o da instalação, da
escultura, do monumento (actualmente, a arquitectura
passa, por vezes, à categoria de “espaço
lúdico/monumental urbano” e continua, como sempre, a ser
representação de cultura e de poder). Assumindo um
espaço próprio para a presença social da arquitectura
contemporânea na relação com as artes, pretendesse
com a representação oficial portuguesa à 8ª Bienal
Internacional de Arquitectura de São Paulo a afirmação
da criação em arquitectura na sua relação com o espaço
em concreto.
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Mais
do que isso, a sua relação com o lugar. E nessa relação,
a convocação da densidade
social do lugar.
A história portuguesa com África é uma história grande.
Na construção da história do
futuro, a arquitectura portuguesa pode ter o seu papel.
Como se verá no decurso do catálogo, a influência do
trabalho de arquitectura portuguesa em Angola, Cabo
Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe
marca de forma irrenunciável o século XX.
Essa marcação é quase o espaço de liberdade em
arquitectura que a então Metrópole não
permitia aos nossos arquitectos. Por isso, alguns dos
melhores exemplos do Modernismo em arquitectura
assinados por portugueses se encontram em África,
demonstrando a nossa
pertença a esse espaço. Essa pertença deve, pois, ser
assim visitada – não como acto colonial, antes como acto
relacional.
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