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29ª EDIÇÃO DA BIENAL DE ARTES DE SÃO PAULO
PARTICIPAÇÃO PORTUGUESA NA
A 29ª edição da Bienal de Artes de São Paulo
decorre entre 25 de Setembro e 12 de Dezembro de 2010 no Parque
Ibirapuera, em São Paulo, sob a curadoria-geral de Moacir dos Anjos e
Agnaldo Farias e consultoria dos co-curadores Fernando Alvim, Rina
Carvajal, Yuko Hasegawa, Sarat Maharaj e Chus Martínez.
A edição deste ano é marcada por uma forte representação portuguesa, a
maior desde sempre - António Manuel, Artur Barrio, Carlos Bunga, Filipa
César, Maria Lusitano Santos, Pedro Barateiro, Pedro Costa e Escola
Maumaus.
Antonio Manuel
Antonio Manuel espelha a realidade urbana do Brasil, assumindo um forte
compromisso sociopolítico. Em meados da década de 1960, por meio de
actos subtis e respostas ao momento repressivo vivido pelo país devido à
ditadura militar, o seu trabalho encontrava-se em permanente estado de
alerta e construção, amparado por uma atitude libertária e pela ambição
de importar o real para o campo da arte, reconfigurando-o como
matéria-prima de novos conceitos. Nos flans, Antonio Manuel apropria-se
de matrizes de um jornal e trabalha-as graficamente, gerando operações
de apagamento, denúncia e subversão desse media. Ao interferir no espaço
do jornal, o artista explora o facto social como objecto artístico e
inverte as hierarquias entre discurso oficial e fala pessoal. O mesmo
ocorre em Repressão outra vez ? eis o saldo, em que um conjunto de
informações visuais e textuais nos tons vermelho e preto, cobertas por
panos negros, precisam de ser descortinadas para que o espectador
descubra nelas uma realidade reconfigurada. Semi-Óptica, uma sequência
de supostos criminosos mortos e as suas fichas de identificação, desvela
a ambiguidade inerente à urbanidade brasileira, à qual o artista se
refere com contrastante afecto.
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Artur Barrio
Desde meados da década de 1960, Artur Barrio testa os limites da
experiência artística. O artista cria situações e instalações em que
manipula sal, sangue, ossos, carne, tijolos, peixes, pó de café e tudo
quanto seja sugestivo para os sentidos do artista e do público. São
experiências acerca dos limites entre corpo e mente, indivíduo e espaço.
As suas obras recusam-se a assumir a forma de objectos dóceis ao consumo
ou à teoria. Não são pinturas, nem esculturas, e os seus desenhos e
fotografias aproximam-se mais de registos. As suas acções são anotadas
em CadernosLivros, nos quais se acumulam considerações introdutórias,
registos de processos, avaliações e memórias posteriores. São resíduos
de um fluxo de actos e pensamentos. O trabalho de Artur Barrio encontra,
então, algumas experiências-limite, como 4 dias 4 noites, 1970. Como o
nome indica, o artista passou quatro dias e quatro noites caminhando
pela cidade do Rio de Janeiro, sem destino, sem se alimentar e sem
dormir. Durante esse tempo, apenas se dirigiu a algumas pessoas dizendo
que se tratava de uma experiência artística, não tendo feito anotações.
Desse trabalho, só sobraram as lembranças do artista e um CadernoLivro
de 400 páginas, que permanecem em branco. Artur Barrio apresentará na
29ª Bienal de São Paulo, além de uma instalação inédita, um conjunto de
registos de acções realizadas entre o final da década de 1960 e início
da década seguinte. Como parte da exposição, o trabalho de Barrio estará
inserido num núcleo temático chamado dito, não dito, interdito, que
coloca em evidência operações no campo dos discursos, do que pode e do
que não pode ser dito. A voz e a escrita como princípios ou como recusas
de encontros.
Carlos Bunga
A obra de Carlos Bunga relaciona-se com o lado frágil e transitório da
arquitectura. O artista produz instalações em grande escala a partir de
uma pesquisa sobre as características históricas, identitárias e
culturais dos espaços urbanos. Entendendo a cidade como um grande
laboratório experimental, Bunga apropria-se de lugares preexistentes e
reconfigura-os por meio de estratégias de construção, demolição e
destruição. Longe da metodologia dos arquitectos e engenheiros, a
elaboração do seu trabalho é intuitiva, manual, pobre e cumulativa,
formulando-se também como decorrência de repertórios e técnicas próprios
da pintura sobre tela. Não raras vezes, os seus ambientes, corredores ou
labirintos, realizados com adição de tinta, fita adesiva e papelão,
tornam-se ruína no decorrer de acções performáticas. O carácter
vulnerável e processual da obra de Bunga está presente em Lamp, um vídeo
em que o artista destrói e reconstrói uma pequena lâmpada, aglomerando
os seus estilhaços com fita adesiva. Como em outras das suas obras, esta
acção estabelece uma analogia com os factores de incerteza e de
instabilidade que caracterizam a sociedade contemporânea.
Filipa César
Filipa César exibirá uma vídeo instalação de duplo canal que faz parte
da premiada série "Castro Marim, um lugar de Degredo". Trata-se da
justaposição, em projecções contínuas no espaço, de Memograma e Insert.
Ambos foram finalizados em 2009 e versam sobre a prisão de Castro Marim,
no Algarve, onde foram internados compulsivamente lésbicas e gays, entre
1933 e 1974, durante a ditadura portuguesa. Memograma é uma aproximação
a conceitos de punição/sanção social tais como exílio, degredo e
ostracismo. O projecto tem como ponto de partida a superfície geográfica
e a profundidade histórica da área de fronteira de Castro Marim, em
Portugal. Durante vários períodos da História portuguesa, desde os
tempos da Inquisição, e, em particular, na história recente do Estado
Novo, Castro Marim foi um destino comum de deportação e exílio, para o
qual centenas de pessoas foram deportadas e excluídas da sociedade,
criando, entretanto, uma outra sociedade. O som de depoimentos de
especialistas, testemunhas e cidadãos locais segue enquanto se vê a
imagem de uma montanha de sal inserida na paisagem de Castro Marim,
enquanto o sol se põe, gradualmente alterando o colorido e a
luminosidade da cena. Memograma é uma instalação que inclui um segundo
filme, Insert. Lado a lado com o registo de realidade de Castro Marim,
Insert aporta o ruído da ficção. Em preto e branco, sem som, com duração
de 10 minutos, o filme em 16mm relata o convívio e o namoro de duas
mulheres num lugar retirado, uma ilha com dunas de areia, cuja
localização realmente não se pode identificar. Avizinhada de Memograma,
no entanto, a ilha parece contaminar o cenário de exílio e higienização
social de Castro Marim criando um interstício para este amor proibido.
Maria Lusitano
O trabalho de Maria Lusitano resulta de um processo incessante de
acumulação e edição de informações acerca de factos históricos. É uma
contra-narrativa que contempla não só os discursos dominantes, mas
também os próprios mecanismos de escrita e consolidação de acções e
personagens na linha do tempo. A artista faz filmes-ensaio em que cria
as suas próprias versões para os eventos passados, mesclando formas
discursivas, fontes e referências diversas; rompendo hierarquias de fala
e propondo novos protagonismos. The War Correspondent conta parte da
vida do suposto primeiro correspondente de guerra, William Russell, que
cobriu a Guerra da Crimeia, nos Balcãs, entre 1854 ? 1856. Sobre efeitos
sonoros de estúdio e um misto de animação de fotos e jornais de época,
trechos de desenhos animados e filmes, uma locução feminina regista a
relação de Russell com o jornalismo belicista e as suas implicações
éticas e estéticas ante a audiência nascente para o género, no século
XIX. Na qualidade de veículo de informação e socialização ideológica e
também de registro histórico, o jornal é o ponto de partida para o
filme, que alterna momentos de estetização e ficcionalização com outros
de objetividade e crueza documental.
Pedro Barateiro
À sua trajectória, diluída entre a produção de desenho, fotografia,
escultura, instalação, performance e texto, ou entre o documento e a
ficção (a história e a proto-história), o modernismo e o
pós-colonialismo, subjaz um conteúdo crítico evidente. Barateiro explora
as relações de poder e de significação dos espaços de exibição,
questionando os seus protocolos institucionais e confundindo e
contaminando os seus territórios e a sua separação ideológica. Plateia,
anteriormente apresentada no Museu da Cidade de Lisboa (2008) e na
exposição "Evento" (2009) em Bordéus, é a obra que Pedro Barateiro foi
convidado a apresentar na 29ª Bienal de São Paulo. A nova versão
site-specific da obra, que joga com o espaço de exibição enquanto
conceito e estrutura arquitectónicas, propõe uma apropriação e
circulação espacial inéditas e não prescinde, antes reforça, a
participação do público. Uma plataforma de cimento sobre a qual se
desenham fileiras de cadeiras, semi-enterradas e direccionadas para um
ecrã de imaterialidade projectiva, desafia ao reconhecimento da mensagem
ausente e constrange deliberadamente a activação física e metafórica do
objecto escultórico.
Pedro Costa
O trabalho e o tempo investidos por Pedro Costa na realização dos seus
filmes não cabem nos parâmetros comuns à maioria dos filmes de ficção.
Isto porque, desde a sua primeira longa-metragem - 'Sangue', 1990 - , o
artista tem esboçado um novo modo de contar histórias; se no seu
primeiro trabalho produziu um filme a preto e branco muito bem planeado
e executado com uma equipa de profissionais, seguindo referências e
articulações com a história do cinema moderno, hoje o cineasta começa os
seus filmes sem saber ao certo como os terminará. Tal processo foi
desenvolvido e sedimentado na série de filmes 'Ossos' (1997), 'No Quarto
de Vanda' (2000) e 'Juventude em Marcha' (2006), construídos a partir de
visitas efectuadas diariamente a Fontainhas, bairro periférico de
Lisboa, feito de casas auto-construídas habitadas por uma população
muito pobre, quase toda ela composta por imigrantes africanos e onde o
consumo de drogas é facto marcante e comum da vida. Munido apenas de
material básico de filmagem em vídeo, e fazendo dos moradores do bairro
de Fontainhas simultaneamente objecto e protagonistas dos filmes, produz
filmes que, se são histórias e imagens da miséria humana, são também
tentativas de ser menos e mais do que isso. Pedro Costa deixa que a
câmara co-habite espaços desgastados e em demolição, sem soterrar os
seus tempos mortos com discursos ideológicos ou narrativas literárias. O
ritmo lento e denso das imagens construídas pelo cineasta, em que não há
lugar para eventos extraordinários, coincide com a temporalidade da vida
sem rumo dos seus actores. Para a 29ª Bienal de São Paulo, Pedro Costa
está a preparar uma nova vídeo-instalação, na qual utilizará excertos
das suas longas filmagens junto de imigrantes e descendentes de povos
africanos que vivem na periferia de Lisboa. O seu novo trabalho deverá
reflectir sobre as condições de convivência estabelecidas entre as suas
personagens e será uma contribuição fundamental para um eixo conceptual
da mostra chamado 'eu sou a rua', que articula obras que são expressões
de lugares de vida partilhada, de encontros e de rupturas, e cuja
construção (física e simbólica) é, por definição, inacabada.
Escola Maumaus
A escola Maumaus é reconhecida por seu modelo de educação artística
informal e pela sua postura crítica no que respeita aos sentidos e
efeitos dos colonialismos no mundo, em especial em Portugal e antigas
colónias, como o Brasil. A escola propõe-se levar um grupo de alunos e
professores para o Brasil, durante a 29ª Bienal de São Paulo, para
vivenciar o espaço e as discussões suscitadas pelo evento e aproximá-las
de suas próprias questões norteadoras. O tópico principal será o passado
colonial de Portugal e a actualização da relação do país com o Brasil e
com outras antigas colónias, como Moçambique, Angola, Cabo Verde, Guiné
Bissau e São Tomé e Príncipe. Nesse sentido, o programa em São Paulo
investigará intensamente as relações do passado para melhor compreender
o presente, através de seminários, palestras e possivelmente também de
uma exposição paralela à bienal, a ser desenvolvida por um grupo de 14
participantes internacionais. A Escola convidará nomes de Portugal e da
Europa como Ângela Ferreira, Gertrud Sandqvist, Renée Green, Maria
Thereza Alves, Manuela Ribeiro Sanches, Mantia Diawara e Salah Hassan.
| MAIS INFORMAÇÕES |
bienalsp@fbsp.org.br
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