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EXPERIÊNCIAS E OBSERVAÇÕES
EM DIFERENTES TIPOS DE AR
Por Natxo Checa, curador
Experiências e Observações em Diferentes Tipos
de Ar
convoca três dimensões, num regime de intenção e
coerência, na obra fílmica de Pedro Paiva e João
Maria Gusmão. São os seguintes: o estudo de
fenómenos singulares numa tentativa de
compreensão do mundo; a afeição a uma
metodologia científica; e o entendimento da
poesia como possibilidade de aferição de um
mundo apenas parcialmente discernível.
Surpreendentemente essas mesmas dimensões
reflectem o dilema entre a tese de Lavoisier e a
de Joseph Priestley acerca da natureza do
oxigénio. Não é por acaso que a exposição se
apropria do nome do tratado mais conhecido de
Priestley. Desde os pré-socráticos (Empédocles,
Anaximandro e depois Aristóteles) que a ideia de
«ar» é tão metafísica quanto material, porque se
associa a ideia de sopro à respiração e à noção
de que o «ar», enquanto enteléquia,
anima o fogo da vida. Todavia,
na investigação de Priestley, não vamos
reconhecer a qualidade comburente do oxigénio,
identificada depois por Lavoisier. Pelo
contrário, acredita-se que são os próprios
materiais combustíveis que contêm um fluido
inflamável, inodoro e sem massa – aquilo que se
pode entender por elemento flogístico,
libertado durante a queima e, posteriormente,
absorvido pelo meio ambiente. Esse elemento é o
oxigénio e não pertence aos corpos, é
atmosférico. No entanto, essa é a tese que
Lavoisier opõe à tradição da alquímica, cuja
memória JMG+PP redescobrem com o intuito de
seguir as pegadas da transmutação – não
significa o mesmo que transitório, mas
avizinha-se, sendo até bastante próximo.
Ao adoptar a natureza e as suas manifestações
como matéria, os artistas agregam e propõem
intrincados blocos de ideias e conhecimentos que
se traduzem na composição de uma complexa
quimera cientifictícia. Estamos perante a
construção de uma série de guiões ficcionais, de
perfil literário, enraizados na observação de
fenómenos particulares e no desenho de uma
arquitectura filosófica própria. A formulação
destes sistemas no processo artístico de JMG+PP
tem algo de obsoleto, cientificamente, bastante
semelhante à teoria flogística de
Priestley. Vai-se descobrir que estes processos
concorrem para a formulação de uma elaborada
disciplina indagadora do transitório. Neles se
procura um rasto revelador do movimento,
qualquer coisa que possa produzir uma
investigação. Forma-se assim um trilho onde
sequências inaugurais e temporárias de ideias
partilham uma compossibilidade teórica; isto é,
formulam hipóteses que pensam tanto o seu
fundamento, como desenvolvem e confirmam os seus
postulados, a sua demonstração. As propostas de
JMG+PP, assentes num certo tipo de pesquisa
empírica ou na especulação delirante, surgem a
partir de um método racionalista que procura dar
conta da excepção dos fenómenos. Mediante a
sobreposição de estratos (fruto da penetração
entre o literal o metafórico), elaboram-se, ao
longo da sua obra, relatos que não podem ser
assumidos por um código instituído, lembrando,
muitas vezes, uma compilação de factos
documentados sem aparente explicação.
Efectivamente, o que podemos encontrar na obra
destes dois autores são episódios sem nexo:
mostram-se processos que tratam de
acontecimentos anómalos, sucessos inesperados,
exemplos de fenómenos emergentes, ora ao nível
microscópico, ora ao macroscópico, e, sobretudo,
efeitos flogísticos: isto é,
acontecimentos cuja causalidade é invisível, mas
que de alguma forma rebentam, fazem combustão –
criam sentidos revelados depois analogicamente,
através de progressões de significantes: o olho,
o ovo, a lua, o sol, etc....
Na contingência do dispositivo artístico, os
artistas montam uma estratégia que nos aproxima
da mínima evidência do seu pensamento. Como
apresentar uma operação que tem intenção de dar
a conhecer o inominável sem recorrer ao texto?
Como fazer acessível à vista a invenção de
conceitos e terminologias como DeParamnésia,
Eflúvio Magnético e Abissologia,
sendo que essas noções se referem a uma
ontologia patafísica onde o entendimento do
ser está permanentemente sob o efeito do
eclipse?
O trabalho de JMG+PP depara-se sempre com essa
complexidade: a de se propor a resolver a
quimera criada, quimera essa que se
ocupa essencialmente da ocultação e do movimento
dos fenómenos. Como os artistas dizem: «As
coisas sempre se manifestam segundo alguns
aspectos indiscerníveis.»
É por isso que o objecto da sua pesquisa está
sempre em deslize e dificulta a interpretação.
A obra desta dupla é constituída, na sua génese,
por cinema experimental, apesar de não dispensar
pontualmente o recurso à escultura, à fotografia
e a outros dispositivos instalativos. Não
obstante, é mais no registo fílmico e sobretudo
nos filmes em slow-motion que se
estabelece uma relação remanescente do olhar com
o efémero e o transitório. Esta nova proposta
expositiva para a Bienal de Veneza é pontuada
pela disseminação de vários projectores de 16 mm
num circuito. Os engenhos fílmicos na sua
latência sonora marcam um contraponto ao
silêncio da imagem. A atribuição de um espaço
obscuro fora-de-tempo deixa-se reconhecer
pelos débitos de luz num ambiente introspectivo.
As projecções, em aparente alternância, oferecem
ora um filme isolado, ora um conjunto. Uma
construção visual onde narrativas simples e
intervaladas apresentam-se enquanto documentos,
experiências singulares ou fenómenos
inexplicáveis. Na deslocação pela exposição, o
visitante consciente é levado a estabelecer
ligações e a formular ideias reencontrando
sentidos no campo das possibilidades.
Este percurso, radicado no ambiente da excepção,
utiliza os instantâneos como uma ferramenta que
organiza o movente num parecer analógico.
Na obra de JMG+PP esse princípio em que os
filmes provocam ecos uns nos outros recorre à
evidência da manipulação e à construção do
mágico por simpatia. Isto implica sempre a
produção de um acontecimento, seja ele estendido
no tempo ou no imediato.
Percebe-se agora que a intenção de JMG+PP é
produzir algo próximo de uma ciência
revolucionária. Não no sentido em que os
artistas têm uma palavra definitiva a dizer
sobre a verdade, mas porque tentam responder
essencialmente ao instável, àquilo que escapa
precisamente ao definitivo.
Ao descortinar as contradições constantes entre
o ser e o não-ser, o próprio e o não-próprio, o
imaginário de JMG+PP leva a constituir uma
relação corpórea com a imaginação, interligando
estas duas dimensões num ciclo de mutações
materiais. Nos seus filmes, o inconsciente
humano é dirigido à aceitação de que o absoluto
é extemporâneo e que este se dilui na
multiplicidade do mundo. Isto é, que o eu
assume uma grande diminuição na importância das
coisas; não porque seja esmagado pelo absoluto,
mas porque as margens até onde pode organizar o
logos ficam muito além dessa certeza.
Também através dos seus filmes e experiências,
João Maria Gusmão e Pedro Paiva convocam esta
hipótese de outros abismos metafísicos com um
sentido de humor muito particular. Reconhecendo
o fracasso da aproximação ao real, esfolam as
absurdidades científicas traçando pela poesia
novos enunciados. Uma aventura patafísica que
apresenta o que pode ser considerado o maior dos
fracassos: o fracasso do ego e do seu
aprisionamento, a impossibilidade de acesso
directo a uma verdade e uma procura zombante e
alucinada, cujo fim se antevê inalcançável.
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